Faz tempo que não escrevo para o blog, e acredito que este texto é adequado, porque tenho uma opinião bastante polêminca quanto a esse assunto, que não poderia ser publicada na Revista FANTÁSTICA, por exemplo. Alguns escritores amigos meus concordam, outros discordam veementemente. Quero brincar um pouquinho de advogado do diabo.
Vamos primeiro ao clichê: por que pirataria é ruim?
Os escritores, assim como cantores, compositores, e outros artistas, vendem sua arte como trabalho, e a maioria não consegue tirar sustento dessa atividade. Ora, todos vivemos de nosso trabalho, e o trabalho dos escritores é escrever, o dos intérpretes é cantar, e assim por diante. Infelizmente poucos conseguem prover seu sustento apenas dessas atividades.
A pirataria tem a ver com isso?
Não. Só se pirateia quem faz sucesso, e fazer sucesso é sinal de pelo menos conseguir por o feijão com arroz na mesa todo dia.
O fato é que essas profissões dependem muito da fama que se atinge com o público. Enquanto algumas pessoas passam incógnitas em seus universos profissionais, o cantor, o ator, a escritor, dependem inteiramente do público. E justamente por isso que não concordo quando alguém fala que alguma banda “se vendeu”, mas isto é discussão para outro artigo.
A pirataria faz algo que é realmente abominável: pega o trabalho de uma pessoa e o disponibiliza gratuitamente, principalmente na internet. É muito fácil pensar em piratear um software sem pensar em todas as pessoas envolvidas em sua criação, afinal “é muito caro pra comprar, então nada mais justo”. Não se pensa nas razões do alto custo, embora vivamos numa economia de mercado, que tem justificativa para todas as etiquetas.
Ninguém pensa, por exemplo, que, ao piratear uma música, está agindo como um senhor de escravos. Afinal, piratear é usufruir do trabalho de uma pessoa de graça. E ninguém que pirateia jamais pensaria em trabalhar de graça. Todos querem seu salário no final do mês, por menor que seja, como recompensa pelas suas oito horas diárias de trabalho. E parece fácil cantar, ou escrever. Na verdade, qualquer trabalho é muito fácil quando não é você que o executa.
Mas os cantores ainda tem uma vantagem sobre os escritores. Afinal, mesmo tendo seus discos pirateados, podem cobrar uma valor altíssimo pelo show, e sempre haverá pessoas para comprar os ingressos. Os escritores tem somente seus livros para vender. Argumenta-se que é caro, mas realmente. 40 reais é o preço médio de um livro nacional, que tem tiragens bem menores que os grandes best-sellers internacionais.
Bem, quantas pessoas gastam apenas 40 reais numa saída para a balada? Porque, dependendo do lugar e do sexo do indivíduo, esse é o valor da entrada.
O problema está no valor que vemos nas coisas. O peso que colocamos à balança.
Então alguns autores fazem rios de dinheiro com suas vendas, pois a alta tiragem permite um custo final ao leitor bem menor. Há excelentes livros por 10 reais nessas promoções que vemos todos os dias em sites como o Submarino.
Bem, nem todos os autores pirateados fazem rios de dinheiro, mas boa parte tem tiragens razoáveis e consegue sobreviver de direitos autorais.
E então, pirataria é ruim?
Claro. Todos os argumentos de que falei acima (que, aliás, nem são meus, são uma bela compilação de tudo o que já ouvi e li a respeito) provam que sim. Pirataria é ruim com uma certeza matemática.
Será?
Para autores nacionais, especialmente os recém-lançados, penso que é uma oportunidade. Há alguns amigos meus que pensam o mesmo que vou expor a seguir.
Alguém que não gosta de ler, ou não quer ‘gastar’ dinheiro de qualquer modo, não vai comprar o livro. Não vai, e não adianta discutir. Agora, há dois caminhos: a pessoa não vai conhecer nenhum livro lançado, perderá as boas leituras que surgem a todo momento e seguirá sua vida. OU encontrará um livro perdido em algum recanto obscuro da web, poderá criar curiosidade e quem sabe, baixar a versão ruim pirateada, geralmente um scan não tão agradável.
Aí reside uma oportunidade.
Suponhamos que essa pessoa comece a ler e goste da história. Ela pode ler tudo no computador e nunca mais pensar no livro. Com certeza isso acontece bastante. Mas ela conhecerá o livro e seu autor. Haverá outros livros expostos em seu caminho, e há a possibilidade do interesse por um impresso, porque pouquíssimas pessoas suportam ler no computador.
Há outra hipótese. A pessoa pode amar o começo do livro, não suportar ler no computador e parar. Mas, num dia chuvoso quando não houver outro lugar em que entrar a não ser uma livraria no caminho, o livro em questão pode saltar a seus olhos na prateleira. Ela pode ou não comprá-lo, depedendo de sua situação financeira, ou do quanto gostou da história.
Ou pode ler, odiar e nem querer mais ouvir falar de livro e autor.
Mas, já dizia Einstein, no centro de cada possibilidade repousa a oportunidade. Um autor nacional recém lançado pode guardar seu livro para si e caçar todos os sites que porventura possam querer disponibilizá-lo gratuitamente, pedindo para retirarem o download do ar. Assim, pode ter certeza de que receberá o valor de todos os seus livros vendidos, que, com sorte, chegará a cem reais.
É muito horrível dizer isso?
A menos que o autor ou a editora tenha um bom dinheiro para investir em marketing, o livro não será conhecido, não estará nas prateleiras, portanto não será visto e muito menos comprado. Então, os 10% do valor de capa dos exemplares vendidos a amigos e família podem dar uns cem reais.
Cenário obscuro?
A verdade é que considero a disponibilização de textos nacionais recém-lançados, ao menos em parte, uma forma de divulgação rápida e barata. Há várias ferramentas na internet que permitem muitas formas de divulgação de textos, e mesmo algumas plataformas, de forma gratuita.
A maior parte dos escritores em início de carreira trabalha em outra coisa para se sustentar, e insiste em escrever, contra todas as dificuldades, das quais a falta de tempo é apenas uma delas. Você quer ser recompensado pelo seu trabalho, e nada mais justo, entretanto, há que se considerar que, a rigor, ninguém pediu o seu trabalho. Você o realiza e oferece. As pessoas tem o direito de querer conhecê-lo ou não.
Aí um dia alguém lê, acha interessante e resolve perder o tempo dela para disponobilizar o que você fez na internet. Alguma pessoas sentem-se ultrajadas; outras ficam quase lisonjeadas. Piratear dá trabalho, e, se ninguém conhece o que você fez, a única outra razão para isso seria, supostamente, terem apreciado o que você fez? Ou não?
Em algum momento, se seu livro, conto etc, for realmente bom, existe aquela chance de editoras saberem que existe justamente por causa dessa prática ofensiva, quererem publicá-lo, talvez até de outros países lusófonos.
Obviamente uma forma de fazer isso sem piratear são as disponibilizações de teasers, com os primeiros capítulos de um lançamento. É uma prática comum e bastante inteligente.
Eu poderia lançar milhares de argumentos contra a pirataria, e outros milhares a favor. Mas queria pensar em alguma coisa: dificilmente o autor é quem ganha mais no combate à pirataria. Também não se pode pensar apenas no autor, afinal há muitos outros profissionais envolvidos no processo de publicação, e todos eles tem salários. A empresa – a editora – não é casa de caridade, e precisa se pagar também. Mas não é fato que, se o preço fosse mais acessível, haveria chances maiores das pessoas comprarem o produto original, e aqui falo também com a indústria audiovis (ainda que eu deva reiterar que, numa economia de mercado, o preço das coisas nunca é tirado da cartola).
Sobre o preço dos livros, recomendo fortemente o artigo de Richard Diegues na Revista FANTÁSTICA.
E, falando em pirataria, redução de preços dos livros etc, pretendo escrever meu próximo artigo sobre e-books, a vinda da Amazon pro Brasil e esses temas superlegais e polêmicos do momento.
Acredito que voltarei a escrever semanalmente.

Desenho Stop SOPA
Encontrei esta imagem de protesto contra a SOPA neste link.