Criação de Personagem

A parte mais deliciosa de escrever. Não tem receita de bolo, cada autor faz de um jeito (o meu post sobre a Oficina no Andrá Vianco no Fantasticon fala um pouco da forma como ele faz isso). Se você é leitor, poderá gostar de saber como os autores fazem (e muitos fazem como eu faço, pelo que já conversei). Se você é autor, é sempre bom conhecer como os coleguinhas fazem.

Primeiro, no meu livro não tem nenhuma das pessoas que eu conheço transcrita. Isso seria acabar com a pessoa, e seria um pouco arrogante achar que posso prever como ela reagiria em cada situação. Se você é minha melhor amiga, ou minha irmã, ou a pessoa que mais me odeia no mundo, de qualquer jeito você não está no meu livro.

Entretanto, as pessoas que conheço, como disse o artigo anterior, fazem parte do meu universo particular, então características delas estarão misturadas a tantas outras para compor a complexa teia que é a personalidade de uma personagem (meu, sabiam que “personagem” é um substantivo feminino, né? Usei diversas vezes no masculino para não criar mutio choque, hoje em dia a Língua Portuguesa aceita como um substantivo comum de dois gêneros).

Então, basicamente, uma personagem tem alguma caracteística minha, boa ou ruim (toda personagem é parte do autor, tendo sido criada por ele, sendo algo que ele goste ou não goste é parte dele), e tem mais algumas características, vindas de alguém que vi num filme, outra pessoa que vi no metrô e me deu tal impressão, outra da minha chefe, outra de uma das minhas irmãs, mas aquele jeito de falar pode vir de alguém que eu não gosto.

É uma salada, mas isso cria maior identidade do leitor com a obra, porque uma personalidade múltipla é muito mais plausível do que uma personagem linear, que não causa supresa.

Isso explica o fenômeno das pessoas amarem os vilões (ou grande parte das pessoas amarem a maior parte dos vilões). A gente quer que o bem vença, mas aquele vilão que sabe pudesse escapar. Não, gente, isso não é maldade do nosso coração, como muitos dizem por aí. Isso é um terrível erro de leitura da opinião do leitor.

É que as ações do mocinho e da mocinha são previsíveis na maior parte dos casos. A gente sabe que eles são ótimos, pessoas maravilhosas que tem que vencer para que o mundo seja um lugar mais feliz. Nós agonizamos junto com eles, rezamos para tudo dar certo.

Mas tudo o que eles passam e que nos causa simpatia é por causa dos vilões. Só existe história por causa dos vilões. E são os vilões que nos surpreendem, porque não há padronização de ações deles. Sabemos que eles querem vencer a qualquer preço, o que os torna inescrupulosos.

Só que isso é tudo o que sabemos deles. Quando vemos suas ações escritas, eles sempre nos surpreendem. São inteligentes e interessantes.

Não se pode taxar um leitor como “de má índole” por gostar de que causa suas maiores emoções durante das páginas de um livro. Na vida real, ninguém acha bom um cara que arma um esquema para acusar o próprio irmão da morte de alguém. Mas no livro, conhecemos os dois lados, e de repente você entende que aquele vilão é um coitado, que sofreu com o desinteresse da mãe, e que não aprendeu que pode vencer de outro modo.

Já repararam que o Dick Vigarista está sempre na frente da Corrida Maluca quando começa a trapacear pra fazer os outros perderem?

Quem já assistiu à série da Fox Glee deve saber que é Sue Sylvester. A gente ama o Clube do Coral, a gente adora o Mr. Schuester, mas torcemos pela Sue com amor igual. Ela não é má. Ela cuida com tanto amor da irmã deficiente que até dá lágrimas nos olhos ver a cena. Mas ela é malvada e quer acabar com o Clube do Coral de qualquer jeito.

Vampiros são tão queridos (estou falando de vampiros, tipo o DRÁCULA mesmo), porque são horríveis e cruéis, mas a história do Drácula nos faz entender o que aconteceu para ele ser assim. Ele é um predador de humanos tanto quanto somos predadores de bovinos. Nós não queremos que os vampiros dominem a terra, mas bem que eles podiam ir morar num outro canto e ficarem lá, felizes da morte, né?

Então falei tudo isso sobre vilões porque ouvi uma vez uma autor falando que quem gosta do mocinho é uma pessoa boa na vida real e quem gosta dos vilões tem má índole? QUE?! Nossa, já to no inferno, então. Fui sonserina desde criancinha. Fui fã do Drácula desde a primeira página. Meus heróis favoritos são anti-heróis (o 007 é uma assassino impiedoso, o Snape – meu preferido – foi comensal da morte).

O que gostamos como é da complexidade que só os vilões e anti-heróis são capazes de construir. A Branca de Neve é uma chata sem sal. A graça da história é a Bruxa. Nós adoramos o rei Mufasa (O Rei Leão), mas o Scar é super style.

Quando for construir um mocinho, eu recomendo muito uma personagem não linear (como autora e como leitora). Um dia minha irmã leu uma cena da mocinha e gritou: “Ai, não acredito que ela fez isso!” Nada demais, só algo que não se espera que mocinhas façam.

E tenho que comentar. Não sei se minhas amigas que leram a primeira versão do livro acompanham meu blog, mas o meu vilão (aquele que só aparece no 3º livro), recebeu vários pedidos de casamento. Receberá mais, tenho certeza 😀

Só que procuro não entediar o leitor com meus protagonistas. Não tenho herói, mas anti-herói. A mocinha é uma coisa muito estranha (ela não faz par romântico com o anti-herói, vocês vão ver quando sair o livro). E acho que a temática de não dar ênfase demasiada ao romance é uma aposta meio ousada, mas interessante all the same. Pelo menos não perco todo o público masculino. Mas o feminino vai achar legal também, eu prometo.

O que eu quero terminar dizendo é: o leitor não é um vegetal. É uma pessoa com personalidade, que vivência, preferências. Se nós, autores, escrevermos o que eles já leram várias vezes, vamos cair no esquecimento (adoro como o Vianco falou disso, ele diz para só escrevermos uma história se tivermos algo diferente que valha a pena contar).

Ai, caramba, mais de mil palavras! oO É que criação de personagens me empolga 😉

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3 pensamentos sobre “Criação de Personagem

  1. Pingback: Cafeína 003: Terça de leituras e algo mais « Café de Ontem

  2. Também não acredito em heróis e vilões. Muito simplista categorizar essa ou aquela pessoa como boa ou má. Muito preto no branco. E a vida não é assim. Como a ficção, em geral, é um reflexo da realidade, também não pode ser assim.

    Particularmente, acredito que coisas ruins aconteçam para todos. Tragédias, dias ruins, enfim, o que ocorre é que algumas pessoas se deixam abater por isso e se revoltam com algo ou alguém e sofrem com isso e provocam o sofrimento das pessoas ao seu redor. Entretanto, há aqueles que por mais percalços que passem possuem uma fibra, uma firmeza e sempre seguem adiante.

    Se cabe aqui chamar estes ou aqueles de heróis ou vilões cabe ao autor de uma obra definir. Pessoalmente, prefiro evitar os termos.

    • Eu uso os termos para as pessoas entenderem, mas o herói e o vilão estão dentro da gente. Nós somos o filtro da briga entre eles. Não tem nada de espiritual nisso, simplesmente algo freudiano: o id e o superego brigando pelo controle do ego. E tanto isso é verdade que, se eu não tivesse ambos dentro de mim, não teria conseguido criá-los todos.

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