Discurso sobre o Trabalho

Ok, eu não sou psicólogo, socióloga, antropóloga, marxista, subversiva nem nada assim, mas ultimamente tenho observado um mesmo fenômeno entre as pessoas que orbitam em minha esfera social. Acho que é um fenômeno que sempre esteve lá, mas só agora parei para observar sobre a gravidade dele.

Trabalho.

É uma palavra meio assustadora, às vezes mal vista, conhecida como o mal necessário, porque vivemos no sistema de capitalista, no qual vendemos nossa força de trabalho em troca de um salário com o qual sustentaremos nossas necessidades e nossos caprichos.

Só que nós fazemos do trabalho um monstro que ele não deveria ser. Mesmo as pessoas que amam suas profissões acabam ficando decepcionadas, ou com salários que não estão à altura de seu trabalho (e isso desanima o trabalhador, fazendo com que seu desempenho fraqueje), ou com algum colega ou chefe cheio de querer ser algo que não é, ou com o tempo de trânsito para ir ao trabalho e voltar para casa.

O primeiro problema é a mentalidade doentia de que devemos trabalhar em algo que ‘dê futuro’. Sinto muito, a maior parte das pessoas que conheço crê nisso, mas se você não gosta do que faz não vai fazer bem e não vai chegar a lugar nenhum. Por maior que o salário seja você vai achar que ganha pouco quando trabalha em algo que detesta.

Tem uma frase do Confúcio que eu gosto de mentalizar: “Ame seu trabalho e jamais trabalhará na vida”. Não reclame que seu trabalho não satisfaz suas expectativas quando você se obrigou a ir para uma área que não é a que você sempre quis.

Eu comecei a cursar Direito por causa do meu pai. Os advogados e estudantes que gostam disso fazem um trabalho incrível. Quando ainda era tudo novidade e eu gostava, meu trabalho era ótimo. Eu adorava meus colegas de faculdade, meus professores e meus chefes do escritório, mas não me sentia viva trabalhando naquilo. Parei. Não estava rendendo tanto quanto deveria, como fazia antes. Então só parei, ué. Não estou falando que precisamos chutar tudo para o alto, mas já ouvi dizer que “a felicidade não é o objetivo, ela é o caminho”.

Outra coisa, a crença de que algumas profissões dão retorno financeiro e outras não é mentira. Os nossos resultados vem do tamanho do nosso esforço com um pouco de sorte de saber aproveitar as oportunidades. Ok, se você fizer Medicina você provavelmente tem chances maiores de ter um emprego fixo do que se estudar Música, mas quanto uma pessoa investe para estudar Medicina? Se não ganhasse bem depois ninguém ficaria seis anos na faculdade se matando se estudar, depois mais três de residência se matando de trabalhar.

Ah, eu conheço músicos e não estou de maneira nenhuma desprezando a profissão. Até acho que o estudo da Música é compável ao das ciências exatas em questão de dificuldade. Apenas citei este em especial porque é um dos cursos com que a sociedade tem mais preconceito no que tange à vida financeira. A maior parte dos pais abomina um filho que quer fazer faculdade de Música. Aí esse filho vai fazer Administração, ganha um salário razoável e passa o resto da vida em depressão e ninguém entende por que alguém de vida estável é tão infeliz.

Também não tenho nada contra Administração. Conheço administradores que amam seu trabalho e são verdadeiros workaholics. O problema é querer obrigar uma pessoa a trabalhar em algo que ela não quer.

Óbvio que este assunto abre espaço para muitíssima discussão. E adoro isso. O argumento geral é: mas você consegue ser feliz se trabalhar em algo que gosta e sem ter dinheiro para comprar suas coisas?

Em minha modestíssima opinião, se você faz algo que ama vai dar tudo de si, e conseguir alcançar seus objetivos nisso. O sucesso financeiro viria como consequência. Talvez estejamos tão impregnados com a ideia de que certas profissões vão nos fazer fracassar quanto ao dinheiro que não lutamos o suficiente para atingir o sonho.

Já ouvi dizer que sou sonhadora. E não se enganem, não sou contra ter dinheiro. Acho que o capitalismo tem vantagens sobre outros sistemas econômicos que conhecemos (vou apanhar da galera marxista, mas podemos discutir isso depois ^^), mas essa história do trabalho ser a desgraça da vida de uma pessoa está errada.

Outro problema é a mentalidade das empresas (tem mudado no exterior, e algumas aqui no brasil também). A regra geral, até pouco tempo, era a seguinte: precisamos que o funcionário trabalhe o máximo possível para o investimento da empresa no salário dele renda. O menor salário e a maior carga horária possíveis para aquela profissão.

O que acontece é que o funcionário de saco cheio enrola em vez de trabalhar. Se ele tem coisa para fazer no prazo, deixa para a última hora, entrega de qualquer jeito e fica esperando o horário de ir embora. O funcionário que teme o horário de ir trabalhar e louva a hora de ir embora, que seria a esmagadora maioria, não produz tão bem quanto um funcionário satisfeito. Meus amigos de Gestão de Pessoas, RH, Administração e afins saberão falar disso melhor que eu. Revisei uma monografia de pós-graduação justamente sobre esse assunto, e é algo tão nítido que não devia ser assunto para estudo; devia estar no consciente coletivo das pessoas.

Gente, eu poderia falar disso até o próximo século, mas acho melhor encerrar por aqui. Se quiserem comentar o que acham, à vontade, que vocês sabem que respondo comentários 😉

Anúncios

Um pensamento sobre “Discurso sobre o Trabalho

  1. Pingback: Tweets that mention Discurso sobre o Trabalho « Carol Chiovatto -- Topsy.com

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s