Pesquisa para Escrever e Ideia de um Novo Romance

O reino das ideias tem sido o reino mais real para mim há muito tempo. Desde que me lembro. Um psiquiatra que porventura encontre esse blog poderia me diagnosticar com algum tipo de esquizofrenia, mas E.L. Doctorow tem uma famosa quote atestando que escrever é a única forma socialmente aceitável da doença.

E “real” é diferente de “material”; as ideias só se tornam materiais escrevendo, cantando, pintando, desenhando, dançando, tocando, rabiscando ou realizando qualquer outra forma de expressão artística – por excelência a comunicação de uma ideia, sua materialização. Mas ideias são tão reais quanto alguma coisa pode ser.

E um belo dia tive uma ideia maluquinhas, dessas que aparecem e começam a martelar. Não me lembro se estava lavando a louça, tomando banho ou andando por quarenta minutos entre a Paulista e o meu trabalho – que são alguns dos momentos mais propícios para se ter uma ideia maluquinha, já que é quando não temos nada em especial para nos concentrar que exija muito do cérebro.

E a dita ideia é que meu próximo romance vai ter como cenário temporal a Inquisição.

Ora, não sou formada em História,então tudo o que sei a respeito vem do que aprendi na escola e do que vi em filmes, sendo que o único que me vem à memória claramente é O Nome da Rosa. Ou seja, não sei muito. Na verdade, não sei nada.

É uma boa constatação, sabe, a de que você não sabe nada a respeito de algo, porque é quando costumamos pensar em fazer algo a respeito. Se quero escrever um livro que se passa no período da Inquisição, preciso conhecer melhor a época, os costumes, as pessoas, como pensavam de si a respeito da sociedade, a Igreja, o poder, a economia, a política. É muita coisa para entender.

Minha preferência pelo gênero de literatura fantástica não me permite simplesmente inventar fatos, como alguns acreditam funcionar esse tipo de histórias, até porque, não lembro qual foi o escritor que disse “a ficção precisa fazer sentido, ao contrário da realidade”.

E é muita coisa para aprender antes de começar a escrever de fato. Quero dizer, tenho todo o plot, a ideia geral das personagens, suas funções, sei o que quero transmitir e para onde vai caminhar, mas a fase da pesquisa é necessária. Você não escreve sobre algo que não conhece. Por mais sensacional que uma ideia seja, é a materialização dela que vai chegar às pessoas, então é uma parte importante.

Depois de ponderar, concluí que não teria a capacidade autodidata de conhecer tudo o que precisava para tornar o cenário convicente o bastante sozinha. E foi por isso que pedi à minha querida amiga e professora universitária, historiadora, Nikelen Witter, que fosse minha consultora história. Pedi, convidei, implorei; o que soar melhor.

Mandei para ela as poucas linhas que havia escrito e tudo o que pretendia em traços gerais, para ela avaliar o nível de trabalho. A Nika me recomendou uns dez livros para ler, de períodos diferentes da Inquisição, entre outros de temas mais específicos para a minha história, que não pretendo revelar agora.

Foi quando entendi o tamanho do problema. Surgiram mais perguntas ainda. Em qual século? Em qual fase da Inquisição? Em qual região (porque ainda não havia os países como os conhecemos hoje)? E mais um milhão delas.

Pode até ser que algumas pessoas ficariam desanimadas com a perspectiva de ter tanto trabalho, mas eu, muito pelo contrário, fiquei mais empolgada ainda. É tudo muito rico, muito, muito, MUITO revoltante, e entender que alguns fatos vem daquela época, que algumas coisas que aconteceram naquela época vieram de bem antes… é tudo muito mágico. Mágico como escrever literatura fantástica.

A apaixonante arte de escrever é mais do que isso; é entender o que queremos transmitir e materializar a ideia de uma forma palatável ao público que desejamos atingir.

Preciso confessar apenas que não estou conseguindo ler tão rápido quanto gostaria. Alguns livros sobre a época tem a estranha capacidade de me causar náusea, irritação, indignação e essas coisas maravilhosas que compreender História podem fazer conosco. Se eu conseguir transmitir metade dessas sensações em meu romance, acreditarei ter cumprido meu objetivo.

malleus maleficarum
Capa do Livro Malleus Maleficarum, escrito por inquisidores em 1484

P.S.: conheçam o blog da Nikelen Witter, essa pessoa maravilhosa e inspiradora que me deu a honra de ser minha consultora para uma obra mais ambiciosa que outras.

O Twitter dela é @NikelenWitter, e é um daqueles perfis que não te aborrece seguir, porque não fica floodando a timeline com bobagem. Na verdade, ela costuma postar coisa interessantíssimas, mas isso já dá para notar pelo blog, bem diversificado mas sempre relevante.

Anúncios

Um pensamento sobre “Pesquisa para Escrever e Ideia de um Novo Romance

  1. OI!Muito bem seu blog , realmente esse tema de inquisição é muito inspiradora.
    Ano passado inicie um romance com esse tema e estou quase no fim.Estou ansiosa para ler o seu.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s