Pedido aos Nossos Pais

Um texto que escrevi por pura inspiração (depois de ver umas discussões no meu feed) outro dia no Facebook, e achei que valia salvar no blog:

Pais, deixa eu pedir uma coisa pra vocês (pelo bem dos seus filhos?): não ‘queiram’ que seus filhos sejam engenheiros ou advogados, ou qualquer profissão que vocês achem legal, não ‘queiram’ que eles sejam gays ou héteros (isso está fora do seu alcance), não ‘queiram’ que eles sejam nada além de honestos e saudáveis, e que retribuam o amor que vocês dão para eles na mesma medida. Como filha eu posso testemunhar o quanto arruína a nossa vida ser diferente do que nossos amados pais querem (no meu caso, larguei Direito) e, se tentamos ser algo diferentes do que somos para agradar vocês, isso nos destrói. E vocês não tem esse direito. Nem todos conseguem dizer ‘não’ e continuar vivendo bem. Os filhos não são suas propriedades, estão sob sua custódia. Eles são pessoas externas a vocês, e, portanto, diferentes, mesmo que tenham vindo de vocês. Não são sua ‘parte’, porque são vidas independentes. Vocês tem a obrigação de ensinar o que é certo e o que é errado, e a enxergar as nuances. Ensinar a andar, e soltar a mão quando for a hora. Porque um dia, fatalmente, vocês vão morrer e, se tudo correr bem, antes de seus filhos.

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2 pensamentos sobre “Pedido aos Nossos Pais

  1. Carol,

    Sou um dos que não disseram “não” e, por consequência, não conseguem viver tão bem quanto poderiam. Ao contrário de você, que conseguiu impor aos pais o seu desejo de não ser jurista, eu não consegui. E, no meu caso, o que mais amo é a literatura. Você sabe o que é acordar pensando em livros, autores, histórias, e ir dormir pensando em tudo isso junto e bagunçado? Sabe o que é terminar de ler um livro e sentir uma alegria radiante porque o terminou? Sabe o que é passar duas, três horas escrevendo um conto e, ao pôr o último ponto-final, sentir com convicção plena que você só sabe fazer aquilo da vida? Acredito que você tem ciência do quão magnânima é essa sensação. Muitas vezes comentei com meus pais minha ânsia em ser escritor; já houve brigas, já fui chamado de sonhador, clamaram para eu acordar para a vida. E eu acordei, querendo muito mais ficar dormindo. Durante o curso de Direito, tive picos de desânimo profundo, em que não fazia nada a não ser segurar o choro durante uma aula de Direito Penal e outra de Constitucional. Não raro levava meus romances para o fundo da sala de aula e, enquanto o professor lecionava, eu me adensava nas narrativas e sentia que não havia porcaria de legislação alguma que fosse mais importante que um conto sequer. Na época das provas, xerocava integralmente o caderno dos raros alunos que amavam Direito e estudava por suas anotações, porque estava sempre às tantas com ler e escrever literatura. Sempre tive notas boas, nunca fiquei de exame, nem de dependência, mas também nunca pude me dedicar àquilo que amo. Mal podia sair para ir ao bar na frente da faculdade, porque, sendo ela privada, tinha eu de fazer valer a dispendiosa mensalidade com que meus pais arcavam a duras penas. Se tive a intenção de largar essa porcaria de carreira burocrata, todos os meus anseios se acabaram quando, durante ela, fui aprovado num concurso público para trabalhar no Poder Judiciário. Daí fui crescendo na carreira, alcançando altos postos, mas o ânimo em ser jurista diminuía cada vez mais. Hoje ando às tantas com concursos e mais concursos, quando tudo que eu mais gostaria era de ganhar dinheiro escrevendo LITERATURA. No último ano de faculdade, descobri o que me fascinou em Direito ao ponto de eu querer cursá-lo: quando do vestibular, via meu primo e meu pai, ambos advogados, conversando sobre os casos jurídicos e eu achava tudo aquilo fascinante. Mal sabia eu – ou fui saber posteriormente – que tudo que eu mais gostava era das histórias que eles narravam. Das histórias. Das fascinantes personagens da vida real. Dos casos de vida que os processos encerravam. Mas que, infelizmente, não têm o frescor da narrativa literária. E quanto a meus pais, talvez seja covardia eu culpá-los, embora os culpe parcialmente, porque também eles vieram de uma geração em que o que importava era sobreviver. E eu sobrevivo. Meio choroso, meio lamentoso, inteiro covarde de deixar de lado meus cinco mil reais mensais para fazer aquilo que amo. Mas sobrevivo. E a literatura em mim nunca padece, perdura nas fendas, nos vincos, saindo das sombras, aos pouquinhos. Se os pais soubessem que impor suas vontades aos filhos é o mesmo que gotejar um tantinho de veneno diário em seu ânimo de vida…
    Parabéns por cuspir esse veneno, você é uma vencedora!

    Att.

    S.

    • Olá, S., tudo bem? Fiquei muito emocionada com o seu comentário, porque conheço tantas pessoas em situações parecidas. Acho que posso responder uma coisa ou duas, e espero, com isso, poder ajudar.
      Primeiro, é verdade que quase ninguém vive de literatura. Conheço alguns autores incríveis que vendem bastante, mas não conseguem pagar as contas com isso. A grande vantagem da paixão por escrever, na minha opinião, é que não se trata de uma paixão egoísta, sabe? Você pode escrever e ir tentando publicar sem deixar o trabalho. Porque é uma pressão muito grande ter de pagar as próprias contas, e isso a literatura não vai fazer, muito menos no começo da carreira.
      Eu não suportei trabalhar com Direito, embora gostasse de estudar na faculdade. Por isso vim para Publicidade, que é uma área incrível, mas não é nada perto de escrever, então eu entendo. Eu gosto do meu trabalho, e gosto mais de escrever, por isso escrevo. Não importa o quanto esteja cansada, às vezes desanimada, nada tira de mim a alegria de escrever, sabe? Nada mesmo. Se você também se sente assim, nada pode tirar de você a sensação de sentar e escrever, então não pare. Trabalhar e escrever às vezes pode ser cansativo, mas não são coisas excludentes. Outros tipos de artistas vão batalhando seu lugar ao sol enquanto tem um emprego durante o dia, porque, pra quem nasceu a classe média para baixo não tem alternativa. Você só precisa encarar isso como um desafio de forma positiva, algo para fazer você estender seus limites, não um empecilho. Na literatura, afinal, nós podemos qualquer coisa.
      Há algumas editoras de pequeno e médio porte que abrem chamadas para antologias de contos, e muitas não pagas. De repente é um primeiro caminho ^^

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