Entrada no Mestrado (Letras/Inglês – USP)

Ah, bom. Faz bastante tempo que não escrevo no blog, e espero de verdade que este post marque meu retorno às atualizações frequentes (espero que semanais). Eu vim escrever este post porque antes pensava que filosofar sobre a vida e meus percursos em um blog não teria interesse para ninguém, mas ao longo dos meses recebi várias mensagens de pessoas que haviam lido algum texto e se sentido inspiradas, movidas ou interessadas naquilo, porque tinham jornadas parecidas, ou queriam ter (atenção especial para meus relatos sobre ter largado Direito e ido fazer Publicidade enquanto me dedicava paralelamente a escrever).

Por isso queria vir contar minha experiência sobre entrar no mestrado em Letras na USP, no programa de Estudos Linguísticos e Literários em Inglês. Fui aprovada e devo iniciar o mestrado em fevereiro de 2015, mas caminhei bastante antes disso.

Sim, gente, meu nome é Ana Carolina. Segredo revelado.

Sim, gente, meu nome é Ana Carolina. Segredo revelado.

A questão é que eu era muito boa aluna no ensino médio, onde fui treinada, literalmente, para passar em vestibular. Bem, os dramas em relação ao Direito eu já discuti antes, e não passei. Eu teria passado em Letras, se tivesse sido corajosa o bastante de prestar, mas em Direito não passei da 2ª fase. Resultado disso é que, para mim, a USP se tornou um lugar inacessível.

A vida corporativa enche um pouco a paciência, especialmente se você é parte dos milhares de pessoas que precisam atravessar a cidade todos os dias no percurso casa-trabalho. É desgastante, desanimador, e depois de um tempo pode ser que você sinta o que eu senti, que nem todas as promoções do mundo bastariam para me satisfazer, porque o que eu queria não estava ligado ao valor do salário.

Eu já andava traduzindo umas coisas, e fui convidada a começar a traduzir a série Mundo de Oz, para a Vermelho Marinho. Começar a tradução de O Maravilhoso Mágico de Oz foi a experiência mais incrível da minha vida, e fiquei me perguntando por que não tinha pensando em iniciar uma carreira nisso antes. Talvez tivesse achado que havia esgotado minha cota de ousadia ao largar Direito e ir fazer Publicidade (chuvas de pedras de várias direções me incomodaram bastante). A área de tradução costuma ser difícil de entrar, na verdade, e, ao mesmo tempo, às vezes me parece que entra muita gente que acha que basta saber inglês para traduzir, e as pessoas que sabem o que é necessário para fazer uma boa tradução sempre pensam que não sabem o bastante (aqui direciono comentários diretamente a um amigo em especial, tradutor de dublagem, que diz que precisa aprender muito mais para chegar a ser tradutor literário, como se fosse uma escala, e como se dublagem já não fosse difícil o suficiente). Bem, divagações à parte, apesar de outros trabalhos em tradução, considerei Oz o primeiro assim pra valer. E estou falando de Oz porque é o que vou pesquisar no mestrado.

Veja só, eu sempre gostei de associar todas as áreas da minha vida (é engraçado, apesar do curso não concluído de Direito e da graduação em Publicidade, que estou deixando de lado por ora, que poderiam configurar perda de tempo para outras pessoas, para mim foi um ganho, e uso muito essas duas áreas para meu proveito), e em Oz encontrei mil coisas passíveis de análise.

Eu já estava sentido muita falta de estudar àquela altura, tendo me formado um ano antes, e decidi fazer uma pós. Minha amiga Natália, a quem serei eternamente grata, disse: “Filha, pra que você vai fazer uma pós? Vai fazer mestrado na USP”. Ora, Nati-veterinária-estudiosa-acadêmica, formada lá mesmo, disse isso como se fosse a coisa mais fácil do universo, na maior simplicidade, e não havia nem meio tom de sarcasmo na voz dela. Era sério. E eu retruquei que não me sentia preparada e tudo o mais. Você vê, não passar na Fuvest quando metade do universo esperava que você passasse foi traumático. E eu nem queria fazer Direito (embora eu tenha gostado do curso, depois que entrei).

Insisti e insisti, e o Bruno, meu namorado, começou a me levar em colóquios da Literatura Portuguesa, onde hoje ele é doutorando e na época mestrando. Ele disse que, se eu queria voltar para as cadeiras da universidade, era melhor ir para a USP mesmo. Por que não a USP? Eu tinha um preconceito esnobe contra a USP, acho. Algo como “Não passei, não quero mais”. Hoje em dia eu me perdoo por não ter sido aprovada em uma prova que resume três anos do que você aprendeu no colégio em 90 questões e 5 horas.

Bem, ele me levava nesses colóquios e eu pensava: “eu não faço ideia nenhuma do que eles estão falando”. O estudo da literatura é bem diferente daquele a que nos acostumamos no ensino médio, com professores resumindo livros e nos apontando o que deveríamos ter visto e não vimos.

Mas eu tinha um interesse em Semiótica. Semiótica era difícil. Eu sempre tive uma facilidade esdrúxula de aprender qualquer coisa, e Semiótica era uma coisa que fazia meus cabelos ficarem em pé. Bem, na Literatura Portuguesa não tem Semiótica, mas tem em outros departamentos.

Assim, quando decidi que ia sair da empresa em que trabalhava (amo a empresa, mas não a rotina) para me dedicar somente ao trabalho com tradução, ficou claro em minha mente que também estava optando por tentar entrar no mestrado. Isso foi na metade de 2013. Eu já tinha traduzido muito em pé no ônibus a essa altura, e nos horários do almoço, e depois de chegar em casa, e até nos meus sonhos.

Ao mesmo tempo, havia me inscrito em uma pós-graduação em Comunicação e Semiótica na Anhembi-Morumbi. E o Bruno e meu amigo Renato (apresentado pelo Bruno) me incentivaram a escrever para um professor lá da Linguística, que ia ministrar a disciplina de Semiótica Poética, e pedir para ser aluna ouvinte. Vejam só, a Semiótica da área de comunicação é uma teoria diferente da de Letras. Mas eu estava querendo abraçar o mundo, então vá lá.

O professor respondeu que É CLARO que eu poderia frequentar a aula dele. Indicou quatro livros básicos para eu ler, pois eu havia pedido uma bibliografia para chegar sabendo o mínimo, e ofereceu ajuda para eu entender o que precisasse. Essa resposta me deixou muito animada. As aulas dele começariam numa terça; as da Anhembi numa segunda. Fui na aula inaugural da pós na Anhembi. Foi meio chatinha, o professor que a ministrou começou a falar um monte de coisas que deram a entender que o título de mestrado dele equivalia a ser o rei das verdades absolutas. O moço era jornalista, e seu mestrado era dentro da área de jornalismo, mas ele se aventurava a falar coisas da Publicidade que deixariam publicitários – que me deixaram – de cara feia. Ah, a Publicidade, essa vilã. Ah, a Publicidade, essa coisa nefasta com poderes absolutos sobre a mente da “massa” (ai, como eu odeio a soberba com que se fala essa palavra).

Ora, ora, ora. Odiei a aula, mas fazer o que? No dia seguinte, fui à aula do professor doutor na USP, e a primeira coisa que ele anuncia é a palestra de um professor americano, o maior especialista em um teórico, dizendo que ia transferir a aula da terça seguinte, porque queria que fôssemos à palestra e que aprenderíamos muito com ele. Primeira pessoa do plural, sim. Nós. Nós, eu-professor incluído. Ao longo da aula, aprendi toda a fundamentação teórica básica da Semiótica francesa, sempre sendo apresentada às atualizações da teoria, aos diferentes pensamentos etc etc. E foi assim que decidi cancelar a matrícula da pós na Anhembi.

Os alunos que faziam aula comigo eram muito receptivos. Eu tinha muita dificuldade de entender algumas coisas no começo, e às vezes entendia o conceito, mas me via incapaz de aplicar aquilo numa análise. Nunca, nunca me faltou alguém que me pegasse pela mão e fosse me explicar tudo. Veja só, eu não encontrei nas aulas de pós da USP ninguém que se achasse o supra sumo por ser mestre ou doutor, talvez porque, afinal, todos lá são ou estão em vias de ser.

Depois disso, entre greves e quase-greves, me matriculei como aluna especial em duas disciplinas no primeiro semestre de 2014. As duas ótimas, os professores ótimos, outro de Semiótica e um de Literatura Infantil e Juvenil. Eu já sabia que queria estudar Oz, só não tinha muita certeza do que dentro de Oz.

Meu amigo me apresentou à orientadora dele por indicação do meu namorado. Na Semiótica, os professores só aceitam francês como língua de proficiência no mestrado, e eu estou estudando francês ainda. Comecei esse ano. Longe da proficiência. A orientadora dele, hoje minha orientadora, é uma das professoras mais incríveis que a humanidade já viu, tenho certeza. Ela não podia me ajudar em nada relacionado ao projeto, porque seria banca avaliadora do processo seletivo de mestrado, mas eu quis conhecê-la, porque queria saber se o tema da minha pesquisa interessava à pesquisa dela. Fui até ela ela por causa da proficiência em inglês, na área de Estudos Linguísticos e Literários em Inglês, mas, depois de conhecê-la, senti que era bom eu não falar francês. De outra forma eu poderia não tê-la conhecido, e ela é perfeita para a minha pesquisa. Além do mais, o meu corpus (ou seja, o que eu vou estudar) é em inglês, então estar no inglês com a minha orientadora é o melhor de todos os universos possíveis. Além do mais, aquilo que decidi estudar em Oz tinha a ver com a pesquisa dela (que é, bem resumidamente, a construção da identidade por meio do discurso). Eu vou estudar a representação do feminino nos livros de Oz.

Gente, o processo seletivo do mestrado não é fácil (consiste em prova de proficiência em inglês, no caso do meu programa, prova de conteúdo da área – de língua, no caso da minha orientadora, que é da cadeira de língua, e Semiótica é uma teoria afiliada à Linguística – e avaliação do projeto proposto e entrevista com banca). Não é fácil, mas não é impossível. Claro, quando decidi que ia entrar no mestrado, mergulhei nisso de cabeça, e estudei, comecei a participar do grupo de estudos da área, entrei em comissões organizadoras de congressos, comecei a participar de eventos acadêmicos em que aceitavam comunicadores sem vínculo institucional (poucos. É mais fácil se apresentar num congresso se você for graduando com iniciação científica do que se for graduado e não vinculado a uma universidade). Estudei que nem uma louca para a prova. Estudei que nem uma louca ao quadrado para escrever o projeto, e as monografias das disciplinas que estava cursando como aluna especial.

Mas nenhum esforço é em vão, e eu passei, e estou bem feliz, e queria contar para quem quiser ler. A nossa mídia tem uma mania de perseguir a USP. Pode ser que lá existam problemas, mas eu gostaria de oferecer uma outra visão. Em nenhum outro lugar fui tão bem acolhida por colegas e professores.